segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cristo e a tradição religiosa

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Comentário da Lição da Escola Sabatina de doze a dezenove de abril de dois mil e quatorze, preparado por Carmo Patrocínio Pinto ex-diretor do Jornal Esperança e autor de Reavivar a Esperança, uma meditação para qualquer ano. O comentarista é membro de Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga, DF.

 

Introdução

            Tradição significa "entregar" ou "passar adiante". A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a fazer parte da cultura. Muitas vezes certos indivíduos seguem uma determinada tradição sem sequer pensarem no verdadeiro significado da tradição em questão.

            Alguém escreveu: “Para muitas religiões, a tradição é o fundamento, conservado de forma oral ou escrita, dos seus conhecimentos acerca de Deus e do Mundo, dos seus preceitos culturais ou éticos.” E mais: “A tradição religiosa é uma das formas que escolhemos para nos ligar com Deus. Instituições que nos ajudam a realizar a ligação de uma forma melhor.”

            Nós, adventistas, discordamos desses conceitos porque, semelhantes a Cristo, temos como orientação de fé apenas as Escrituras Sagradas, partido do princípio de que toda ela é inspirada por Deus. Não firmamos em tradições, mas “no assim diz o Senhor”.

            Quando Jesus nasceu existiam muitas tradições criadas pelos judeus; a maioria delas tinha por objetivo ampliar determinadas orientações divinas como se fosse uma regulamentação a algum desses princípios, principalmente no que tange a Lei moral dos Dez Mandamentos. Os fariseus eram os guardiões da tradição. Havia dois tipos de tradições. As de cunho Bíblico quando um mandamento sofria um acréscimo que, para os fariseus, o tornava mais completo, por exemplo, o mandamento do sábado. Outro tipo de tradição tinha por base usos e costumes independentes do princípio bíblico. Esse era o pior deles pois, sendo de feitura humana às vezes era colocado acima dos mandamentos de Deus.

Jesus deixou claro que ao regulamentar a Lei de Deus, o homem descaracteriza a própria Lei e desqualifica Deus fazendo Dele alguém incapaz de realizar algo perfeito. Seria uma tentativa audaciosa de melhorar ou aperfeiçoar aquilo que Deus fez e instituiu.

            É curioso que, enquanto os judeus se esmeraram em complementar alguma coisa à Lei de Deus, instituições religiosas que apregoam ter a Bíblia como a Palavra de Deus se arroga ao direito de anular essa Palavra instituindo em seu lugar tradições humanas como princípios de fé.

            Veremos nessa lição algumas tradições judaicas que foram objeto de conflito entre Jesus e a elite religiosa de Seu tempo.

 

Domingo

Jesus usou esse termo partindo do princípio de que a Lei veio por intermédio de Moisés. E como os escribas e fariseus eram exímios defensores da Lei seria como se eles estivessem usando a cadeira de Moisés. Essa seria uma atitude louvável não fossem as distorções cometidas por eles. Eles eram presunçosos, egocêntricos, autoritários e não praticavam o que ensinavam.

Jesus foi claro: “Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” (Mateus 23:3).

 Eles faziam todo o possível para serem vistos e procuravam impressionar as pessoas com a sua aparência. Vestiam roupas suntuosas e usavam adereços chamativos como filactérios. Eles gostavam de serem relacionados com algum personagem importante da história bíblica como Moisés. Não é por acaso que eles se vangloriavam de serem conhecidos como filhos de Abraão.

A humildade passava longe desses líderes. Disse Jesus: “pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los; e fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes,
E amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas,
E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.

Filactérios era uma caixinha contendo quatro advertências bíblicas que deveriam ser transmitidas diuturnamente aos filhos. Usando cintos especiais elas permaneciam atadas ao corpo do fariseu. As passagens bíblicas estão em Êxodo 13:1-10, Êxodo 13:11-16, Deuteronômio 6:4-9 e Deuteronômio 11:13-19. Certa vez Jesus pronunciou um triste ai sobre eles. Disse o Mestre: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” (Mateus 23:27).  


Segunda

O Senhor Jesus admitiu que os discípulos haviam transgredido as tradições. Para Ele isso não era importante. O uso de lavar as mãos não era praticado por princípio de saúde. Era usado para que nenhum deles que tivesse tocado em alguma coisa “imunda” como a mão de um samaritano, contaminasse o seu próprio alimento.

 Muito mais sério era o fato de os fariseus terem substituído a lei de Deus pela tradição dos homens. Quando elas se opunham, o que acontecia com frequência, os fariseus transgrediam o mandamento de Deus "por causa da sua tradição".

            Para ilustrar esse grande pecado que eles cometiam, o Senhor Jesus cita um exemplo: a lei mandava que os filhos honrassem seus pais. Isso incluía sustento financeiro. Mas a tradição permitia que essa lei fosse desobedecida, se o filho dissesse que o sustento financeiro que lhes devia segundo a lei era "corban" (oferta ao Senhor) (Marcos 7:11). Com essa palavra mágica ele se achava desobrigado de obedecer ao quinto mandamento e o pai poderia morrer a míngua sem que fosse atribuído ao filho qualquer culpa.

             Esta acusação feita pelo Senhor Jesus tornava insignificante qualquer discussão sobre lavar ou não as mãos antes de comer. A força moral da lei de Deus estava sendo anulada pelos caprichos e pela conduta imoral deles.

 

Terça

O que enraivecia a liderança judaica não era que Ele transgredisse o que estabeleciam as Escrituras do Antigo Testamento (o que Ele obviamente não fez), mas que Ele desafiasse e se colocasse contra o que eles chamavam de tradição dos anciãos.

Para alguns desses líderes, quando Moisés esteve no monte Sinai Ele recebeu duas tábuas da Lei. A tábua dos Dez Mandamentos entregue de maneira clara e uma tábua entregue secretamente contendo a maioria das tradições existentes nos dias de Cristo. Esse pensamento aos poucos foi sobrepujando a própria Lei. As tradições eram uma lei transmitida verbalmente pelos anciãos do povo, que depois veio a fazer parte do setor de "purificações" do código de leis israelitas chamado Mishna. Elas não se acham na lei de Moisés mas foram acrescentadas como um suplemento pós-bíblico.

Lavar as mãos antes de comer não era exigido pela lei de Moisés, mas os fariseus e os escribas consideravam que isto fazia parte da santidade de vida. Tornou-se um ritual obrigatório, com vários regulamentos, envolvendo lavagem não só antes, como depois, e mesmo durante as refeições assim, as mãos eram lavadas repetidas vezes durante uma refeição. Elas tinham que ser imersas. A água tinha que ser "pura", e os utensílios também tinham que estar cerimonialmente "limpos". Havia talhas próprias para a água usada nas purificações (João 2:6-8). Assim, a questão levantada nesta ocasião pelos inimigos do Senhor nada tinha a ver com etiqueta ou higiene, mas era um pecado sério no seu entender. Parece que a maioria dos líderes religiosos tinha uma espécie de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

O Senhor Jesus admitiu que os discípulos houvessem transgredido as tradições. Para Ele isso não era importante. Muito mais sério era o fato que os fariseus haviam substituído a lei de Deus pela tradição dos homens. Quando elas se opunham, o que acontecia com freqüência, os fariseus transgrediam o mandamento de Deus "por causa da sua tradição".

Alguém afirmou: “A tradição, em si, não é boa nem má.” É a simples passagem de um costume através das gerações. Mas o costume acabava se tornando tão forte quanto à lei, eventualmente firmando-se no Talmud através do Mishna. Quanto à declaração de que a “tradição, em si, não é boa e nem má” ela é falha porque algumas não tem nenhum fundamento lógico quanto ao seu verdadeiro objetivo.

A hipocrisia caracterizava a conduta dos fariseus, honrando a Deus com os seus lábios, mas tendo seu coração longe dele, adorando a Deus inutilmente, pois ensinavam doutrinas que não passavam de preceitos dos homens. Isaías, que viveu sete séculos antes deste episódio, já havia profetizado sobre isto (Isaías 29:13).           

“As severas denúncias que Cristo proferiu contra os fariseus por ensinarem como doutrina mandamentos de homens, revela a necessidade de precaver-nos contra as teorias que não estão em harmonia com a verdade da Palavra de Deus” (Manuscrito 78, 1904). 

 

Quarta

            Nessa Lição, o estudo de três dias versa sobre Mateus 15:1-6 divididos em sub temas assim identificados: segunda – “Mandamentos humanos”, terça – “Tradição dos anciãos” e quarta – “Preceitos dos homens.” Como o autor não estabelece uma diferenciação entre os três temas e, no meu caso, não encontrei nenhuma referência que os identifique, então deixo a minha versão passível de contestação dos leitores.

Do meu ponto de vista, “mandamentos humanos” eram “normas” criadas pelos rabinos e que tinham força de lei e que muitos confundiam a sua equivalência com a própria lei de Moisés e outros princípios bíblicos.

“Tradição dos anciãos” seria a palavra dos rabinos criada para auxiliar na observância da lei e que, com o passar do tempo, ganhou a força da Lei.  E “preceitos dos homens” são ensinamentos criados em substituição de algum mandamento ou a sua observância tornava nulo algum dos mandamentos como é o caso do texto em estudo.

Recorrendo aos dicionários lemos que A palavra tradição deriva do latim "traditio" que significa transmissão, algo que é transmitido (ou transferido) do passado para o presente. Podemos, assim, retratar a tradição como um conjunto de crenças de um povo que são seguidas e partilhadas sucessivamente durante várias gerações

 

Deixo aqui algumas notas do Espírito de Profecia:

“A lei de Deus, não misturada com tradições humanas, foi apresentada por Cristo como o grande padrão de obediência. Isto provocou a inimizade dos rabinos. Tinham colocado ensinos humanos acima da Palavra de Deus, e de Seus preceitos desviaram o povo. Não quiseram ceder seus próprios mandamentos para obedecer às reivindicações da Palavra de Deus” (Orientação da Criança, p. 304).

“As joias da verdade jazem esparsas no campo da revelação; foram, porém, soterradas pelas tradições humanas, pelos dizeres e mandamentos dos homens; e a sabedoria do Céu tem sido, por assim dizer, ignorada. Satanás tem tido êxito em fazer crer que as palavras e as realizações dos homens são de grande importância.” (Conselhos Professores, Pais e Estudantes, p. 437).

“Mediante falsas doutrinas, Satanás consegue terreno onde firmar-se, e cativa a mente dos homens, fazendo com que se apeguem a teorias que não têm fundamento na verdade. Eles ensinam ousadamente, como doutrinas, mandamentos de homens; e à medida que a tradição caminha de século para século, vai adquirindo poder sobre o espírito humano” (Evangelismo, p. 589).

“Ele (Jesus) não manifestava consideração pelas tradições e os mandamentos de homens, mas abria os olhos do seu entendimento para contemplarem as maravilhas da lei de Deus, que é o fundamento de Seu trono desde o princípio do mundo”, (Fundamentos da Educação Cristã, p. 238). 

“Há incomensurável amplitude, dignidade e glória na lei de Deus; e, no entanto, o mundo religioso pôs de lado esta lei, como os judeus, a fim de exaltar as tradições e os mandamentos de homens” (Fundamentos da Educação Cristã, p. 238). 

            Sabemos que a Lei moral dos Dez Mandamentos sofreu sérias alterações e hoje temos a Lei dos Dez Mandamentos exarados na Bíblia alterada por preceitos de homens. Sabemos que o último haude do grande conflito será a imposição dos preceitos dos homens. “Exigir-se-á de todos que rendam obediência a decretos humanos, para violação da lei divina. Aqueles que se conservarem fiéis a Deus e ao dever, serão traídos "pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos” (Testimonies, vol. 9, pág. 231).

 

Quinta

            Jesus esclareceu que a nossa justiça deve exceder em amor e compaixão a dos fariseus. “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20).

“Jesus revelou o engano. Declarou que a justiça a que os fariseus davam tão grande valor, nada valia. A nação judaica pretendia ser o povo peculiar, leal, favorecido por Deus; mas Cristo apresentava sua religião como vazia de salvadora fé. Todas as suas pretensões de piedade, suas invenções e cerimônias humanas, e mesmo o cumprimento das exigências exteriores da lei, não os podiam tornar santos. Não eram puros de coração ou nobres e semelhantes a Cristo no caráter. Uma religião legal é insuficiente para pôr a alma em harmonia com Deus. A dura, rígida ortodoxia dos fariseus, destituída de contrição, ternura ou amor, era apenas uma pedra de tropeço aos pecadores” (O Maior Discurso de Cristo, p. 52).

 Quando Cristo veio ao mundo, os líderes dos judeus estavam tão impregnados de farisaísmo, que não podiam aceitar Seus ensinos. Jesus os comparou aos odres enrugados que não estavam em condições de receber o vinho novo da vindima. Ele teria de encontrar odres novos para colocar o vinho novo de Seu reino. Foi por isso que Se afastou dos fariseus, e escolheu os humildes pescadores da Galiléia” (E Recebereis Poder – Meditação, p. 23).

Ellen G. White se deparou com “fariseus” em seus dias: “...críamos que uma de nossas irmãs, que estava cuidando de uma família doente, observava tanto o sábado como aquele que dirigia uma divisão na Escola Sabatina; que Cristo não pôde agradar aos fariseus de Seu tempo, e que não esperávamos que nossos esforços para servir o Senhor satisfizessem aos fariseus de nosso tempo. Review and Herald, 18 de outubro de 1898” (Mensagens Escolhidas - volume 3, p. 259).

 E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10:27).

 

Conclusão

            As tradições humanas tem sido uma arma eficiente nas mãos de Satanás. Elas levam as pessoas a servirem a Deus, porém de uma maneira diferente. O fazem segundo a sua conveniência. Esse será o ponto nevrálgico do final do grande conflito. A imposição das tradições humanas substituindo um “assim diz o Senhor” é a grande prova que se avizinha de todos nós.

           

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