Comentário
da Lição da Escola Sabatina de doze a dezenove de abril de dois mil e quatorze,
preparado por Carmo Patrocínio Pinto ex-diretor do Jornal Esperança e autor de
Reavivar a Esperança, uma meditação para qualquer ano. O comentarista é membro
de Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga, DF.
Introdução
Tradição significa "entregar"
ou "passar
adiante". A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores,
crenças,
lendas,
para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a
fazer parte da cultura. Muitas vezes certos indivíduos seguem uma determinada
tradição sem sequer pensarem no verdadeiro significado da tradição em questão.
Alguém
escreveu: “Para muitas religiões, a tradição é o fundamento, conservado de forma oral ou escrita,
dos seus conhecimentos acerca de Deus e do Mundo, dos seus preceitos culturais
ou éticos.” E mais: “A tradição religiosa é uma das formas que escolhemos para
nos ligar com Deus. Instituições que nos ajudam a realizar a ligação de uma
forma melhor.”
Nós,
adventistas, discordamos desses conceitos porque, semelhantes a Cristo, temos
como orientação de fé apenas as Escrituras Sagradas, partido do princípio de
que toda ela é inspirada por Deus. Não firmamos em tradições, mas “no assim diz
o Senhor”.
Quando
Jesus nasceu existiam muitas tradições criadas pelos judeus; a maioria delas
tinha por objetivo ampliar determinadas orientações divinas como se fosse uma regulamentação
a algum desses princípios, principalmente no que tange a Lei moral dos Dez
Mandamentos. Os
fariseus eram os guardiões da tradição. Havia dois tipos de tradições. As de
cunho Bíblico quando um mandamento sofria um acréscimo que, para os fariseus, o
tornava mais completo, por exemplo, o mandamento do sábado. Outro tipo de
tradição tinha por base usos e costumes independentes do princípio bíblico.
Esse era o pior deles pois, sendo de feitura humana às vezes era colocado acima
dos mandamentos de Deus.
Jesus deixou claro que ao regulamentar a Lei
de Deus, o homem descaracteriza a própria Lei e desqualifica Deus fazendo Dele
alguém incapaz de realizar algo perfeito. Seria uma tentativa audaciosa de
melhorar ou aperfeiçoar aquilo que Deus fez e instituiu.
É
curioso que, enquanto os judeus se esmeraram em complementar alguma coisa à Lei
de Deus, instituições religiosas que apregoam ter a Bíblia como a Palavra de
Deus se arroga ao direito de anular essa Palavra instituindo em seu lugar
tradições humanas como princípios de fé.
Veremos
nessa lição algumas tradições judaicas que foram objeto de conflito entre Jesus
e a elite religiosa de Seu tempo.
Domingo
Jesus usou esse termo partindo do princípio
de que a Lei veio por intermédio de Moisés. E como os escribas e fariseus eram exímios
defensores da Lei seria como se eles estivessem usando a cadeira de Moisés.
Essa seria uma atitude louvável não fossem as distorções cometidas por eles.
Eles eram presunçosos, egocêntricos, autoritários e não praticavam o que
ensinavam.
Jesus foi claro: “Todas as coisas, pois, que
vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em
conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” (Mateus
23:3).
Eles
faziam todo o possível para serem vistos e procuravam impressionar as pessoas
com a sua aparência. Vestiam roupas suntuosas e usavam adereços chamativos como
filactérios. Eles gostavam de serem relacionados com algum personagem
importante da história bíblica como Moisés. Não é por acaso que eles se
vangloriavam de serem conhecidos como filhos de Abraão.
A humildade passava longe desses líderes.
Disse Jesus: “pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos
ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los; e fazem todas
as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e
alargam as franjas das suas vestes,
E amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas,
E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.
E amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas,
E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.
Filactérios era uma caixinha contendo quatro
advertências bíblicas que deveriam ser transmitidas diuturnamente aos filhos.
Usando cintos especiais elas permaneciam atadas ao corpo do fariseu. As
passagens bíblicas estão em Êxodo 13:1-10, Êxodo 13:11-16, Deuteronômio 6:4-9 e
Deuteronômio 11:13-19. Certa vez Jesus pronunciou um triste ai sobre eles.
Disse o Mestre: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois
semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas
interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” (Mateus
23:27).
Segunda
O Senhor Jesus admitiu que os discípulos
haviam transgredido as tradições. Para Ele isso não era importante. O uso de
lavar as mãos não era praticado por princípio de saúde. Era usado para que
nenhum deles que tivesse tocado em alguma coisa “imunda” como a mão de um
samaritano, contaminasse o seu próprio alimento.
Muito
mais sério era o fato de os fariseus terem substituído a lei de Deus pela
tradição dos homens. Quando elas se opunham, o que acontecia com frequência, os
fariseus transgrediam o mandamento de Deus "por causa da sua tradição".
Para ilustrar
esse grande pecado que eles cometiam, o Senhor Jesus cita um exemplo: a lei
mandava que os filhos honrassem seus pais. Isso incluía sustento financeiro.
Mas a tradição permitia que essa lei fosse desobedecida, se o filho dissesse
que o sustento financeiro que lhes devia segundo a lei era "corban"
(oferta ao Senhor) (Marcos 7:11). Com essa palavra mágica ele se achava
desobrigado de obedecer ao quinto mandamento e o pai poderia morrer a míngua
sem que fosse atribuído ao filho qualquer culpa.
Esta acusação feita pelo Senhor Jesus
tornava insignificante qualquer discussão sobre lavar ou não as mãos antes de
comer. A força moral da lei de Deus estava sendo anulada pelos caprichos e pela
conduta imoral deles.
Terça
O que enraivecia a liderança judaica não era que Ele
transgredisse o que estabeleciam as Escrituras do Antigo Testamento (o que Ele
obviamente não fez), mas que Ele desafiasse e se colocasse contra o que eles
chamavam de tradição dos anciãos.
Para alguns desses líderes, quando Moisés esteve no monte
Sinai Ele recebeu duas tábuas da Lei. A tábua dos Dez Mandamentos entregue de
maneira clara e uma tábua entregue secretamente contendo a maioria das
tradições existentes nos dias de Cristo. Esse pensamento aos poucos foi sobrepujando
a própria Lei. As
tradições eram uma lei transmitida verbalmente pelos anciãos do povo, que
depois veio a fazer parte do setor de "purificações" do código de
leis israelitas chamado Mishna. Elas não se acham na lei de Moisés mas foram
acrescentadas como um suplemento pós-bíblico.
Lavar as mãos antes de comer não era
exigido pela lei de Moisés, mas os fariseus e os escribas consideravam que isto
fazia parte da santidade de vida. Tornou-se um ritual obrigatório, com vários
regulamentos, envolvendo lavagem não só antes, como depois, e mesmo durante as
refeições assim, as mãos eram lavadas repetidas vezes durante uma refeição. Elas
tinham que ser imersas. A água tinha que ser "pura", e os utensílios
também tinham que estar cerimonialmente "limpos". Havia talhas
próprias para a água usada nas purificações (João 2:6-8). Assim, a questão
levantada nesta ocasião pelos inimigos do Senhor nada tinha a ver com etiqueta
ou higiene, mas era um pecado sério no seu entender. Parece que a maioria dos
líderes religiosos tinha uma espécie de Transtorno
Obsessivo-Compulsivo (TOC).
O Senhor Jesus admitiu que os
discípulos houvessem transgredido as tradições. Para Ele isso não era
importante. Muito mais sério era o fato que os fariseus haviam substituído a
lei de Deus pela tradição dos homens. Quando elas se opunham, o que acontecia
com freqüência, os fariseus transgrediam o mandamento de Deus "por causa da sua tradição".
Alguém afirmou: “A tradição, em si,
não é boa nem má.” É a simples passagem de um costume através das gerações. Mas
o costume acabava se tornando tão forte quanto à lei, eventualmente firmando-se
no Talmud através do Mishna. Quanto à declaração de que a “tradição, em si, não
é boa e nem má” ela é falha porque algumas não tem nenhum fundamento lógico
quanto ao seu verdadeiro objetivo.
A hipocrisia caracterizava a conduta dos
fariseus, honrando a Deus com os seus lábios, mas tendo seu coração longe dele,
adorando a Deus inutilmente, pois ensinavam doutrinas que não passavam de
preceitos dos homens. Isaías, que viveu sete séculos antes deste episódio, já
havia profetizado sobre isto (Isaías 29:13).
“As severas
denúncias que Cristo proferiu contra os fariseus por ensinarem como doutrina
mandamentos de homens, revela a necessidade de precaver-nos contra as teorias
que não estão em harmonia com a verdade da Palavra de Deus” (Manuscrito 78,
1904).
Quarta
Nessa
Lição, o estudo de três dias versa sobre Mateus 15:1-6 divididos em sub temas assim
identificados: segunda – “Mandamentos humanos”, terça – “Tradição dos anciãos”
e quarta – “Preceitos dos homens.” Como o autor não estabelece uma
diferenciação entre os três temas e, no meu caso, não encontrei nenhuma
referência que os identifique, então deixo a minha versão passível de
contestação dos leitores.
Do meu ponto de vista, “mandamentos humanos”
eram “normas” criadas pelos rabinos e que tinham força de lei e que muitos
confundiam a sua equivalência com a própria lei de Moisés e outros princípios
bíblicos.
“Tradição dos anciãos” seria a palavra dos
rabinos criada para auxiliar na observância da lei e que, com o passar do tempo,
ganhou a força da Lei. E “preceitos dos
homens” são ensinamentos criados em substituição de algum mandamento ou a sua
observância tornava nulo algum dos mandamentos como é o caso do texto em
estudo.
Recorrendo aos dicionários lemos que A
palavra tradição
deriva do latim "traditio" que significa transmissão, algo que é
transmitido (ou transferido) do passado para o presente. Podemos, assim,
retratar a tradição
como um conjunto de crenças de um povo que são seguidas e partilhadas sucessivamente
durante várias gerações
Deixo aqui algumas notas do Espírito de
Profecia:
“A lei de
Deus, não misturada com tradições humanas, foi apresentada por Cristo como o
grande padrão de obediência. Isto provocou a inimizade dos rabinos. Tinham
colocado ensinos humanos acima da Palavra de Deus, e de Seus preceitos
desviaram o povo. Não quiseram ceder seus próprios mandamentos para obedecer às
reivindicações da Palavra de Deus” (Orientação da Criança, p. 304).
“As joias da
verdade jazem esparsas no campo da revelação; foram, porém, soterradas pelas
tradições humanas, pelos dizeres e mandamentos dos homens; e a sabedoria do Céu
tem sido, por assim dizer, ignorada. Satanás tem tido êxito em fazer crer que
as palavras e as realizações dos homens são de grande importância.” (Conselhos
Professores, Pais e Estudantes, p. 437).
“Mediante
falsas doutrinas, Satanás consegue terreno onde firmar-se, e cativa a mente dos
homens, fazendo com que se apeguem a teorias que não têm fundamento na verdade.
Eles ensinam ousadamente, como doutrinas, mandamentos de homens; e à medida que
a tradição caminha de século para século, vai adquirindo poder sobre o espírito
humano” (Evangelismo, p. 589).
“Ele (Jesus)
não manifestava consideração pelas tradições e os mandamentos de homens, mas
abria os olhos do seu entendimento para contemplarem as maravilhas da lei de
Deus, que é o fundamento de Seu trono desde o princípio do mundo”, (Fundamentos
da Educação Cristã, p. 238).
“Há
incomensurável amplitude, dignidade e glória na lei de Deus; e, no entanto, o
mundo religioso pôs de lado esta lei, como os judeus, a fim de exaltar as
tradições e os mandamentos de homens” (Fundamentos da Educação Cristã, p.
238).
Sabemos
que a Lei moral dos Dez Mandamentos sofreu sérias alterações e hoje temos a Lei
dos Dez Mandamentos exarados na Bíblia alterada por preceitos de homens.
Sabemos que o último haude do grande conflito será a
imposição dos preceitos dos homens. “Exigir-se-á de todos que rendam obediência a decretos humanos, para
violação da lei divina. Aqueles que se conservarem fiéis a Deus e ao dever, serão
traídos "pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos” (Testimonies, vol. 9,
pág. 231).
Quinta
Jesus
esclareceu que a nossa justiça deve exceder em amor e compaixão a dos fariseus.
“Porque vos digo que, se a vossa justiça não
exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”
(Mateus 5:20).
“Jesus
revelou o engano. Declarou que a justiça a que os fariseus davam tão grande
valor, nada valia. A nação judaica pretendia ser o povo peculiar, leal,
favorecido por Deus; mas Cristo apresentava sua religião como vazia de
salvadora fé. Todas as suas pretensões de piedade, suas invenções e cerimônias
humanas, e mesmo o cumprimento das exigências exteriores da lei, não os podiam tornar
santos. Não eram puros de coração ou nobres e semelhantes a Cristo no
caráter. Uma religião legal é insuficiente para pôr a alma em harmonia com
Deus. A dura, rígida ortodoxia dos fariseus, destituída de contrição, ternura
ou amor, era apenas uma pedra de tropeço aos pecadores” (O Maior Discurso de
Cristo, p. 52).
“Quando Cristo veio ao
mundo, os líderes dos judeus estavam tão impregnados de farisaísmo, que não
podiam aceitar Seus ensinos. Jesus os comparou aos odres enrugados que não
estavam em condições de receber o vinho novo da vindima. Ele teria de encontrar
odres novos para colocar o vinho novo de Seu reino. Foi por isso que Se afastou
dos fariseus, e escolheu os humildes pescadores da Galiléia” (E Recebereis
Poder – Meditação, p. 23).
Ellen G.
White se deparou com “fariseus” em seus dias: “...críamos que uma de nossas
irmãs, que estava cuidando de uma família doente, observava tanto o sábado como
aquele que dirigia uma divisão na Escola Sabatina; que Cristo não pôde agradar
aos fariseus de Seu tempo, e que não esperávamos que nossos esforços para
servir o Senhor satisfizessem aos fariseus de nosso tempo. Review and Herald,
18 de outubro de 1898” (Mensagens Escolhidas - volume 3, p. 259).
“E, respondendo ele, disse: Amarás ao
Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas
forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10:27).
Conclusão
As tradições humanas tem sido uma arma eficiente nas
mãos de Satanás. Elas levam as pessoas a servirem a Deus, porém de uma maneira
diferente. O fazem segundo a sua conveniência. Esse será o ponto nevrálgico do
final do grande conflito. A imposição das tradições humanas substituindo um
“assim diz o Senhor” é a grande prova que se avizinha de todos nós.
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