domingo, 30 de março de 2014

Leis no tempo de Cristo


Comentário da Lição da Escola Sabatina de vinte e nove de março a cinco de abril de 2014, preparado por Carmo Patrocínio Pinto ex-diretor do Jornal Esperança e autor de Reavivar a Esperança, Uma meditação para qualquer ano. O comentarista é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga, DF.

 

Introdução

            Na minha cidade existia um único médico que era ateu. Toda a cidade admirava a sua bondade e generosidade que superava a de muitos religiosos. Ninguém saía do seu consultório sem ser atendido, tivesse dinheiro ou não. Era uma pessoa boníssima. No seu entendimento ser bom ou não em nada alteraria o seu futuro após a morte. Por que ele agia assim?

Alguém afirmou: Significa que todos os humanos têm uma consciência, mesmo que eles não tenham a lei de Deus nos seus corações eles agem segundo a sua consciência, que é uma dádiva divina.”

O pai de John Stott era um inglês agnóstico. O Dr. Stott se converteu ao cristianismo e se tornou um estudioso da Bíblia. Fez teologia e escreveu mais de quarenta livros. Comentando Romanos 2:14 ele afirma: Não existe nação tão oposta a tudo quanto é humano que não se mantenha dentro dos limites de algumas leis. Visto, pois, que todas as nações se dispõem a promulgar leis para si próprias, de seu próprio alvitre, e sem serem instruídas para agirem assim, é além de toda e qualquer dúvida que elas conservam certa noção de justiça e retidão.”

E continua, “Os gentios possuem uma lei, embora não possuam a lei escrita por Moisés, não são completamente destituídos de conhecimento da retidão e da justiça. De outra forma, não poderiam distinguir entre vício e virtude. Paulo contrasta a natureza com a lei escrita, significando que os gentios possuíam a luz natural da justiça, a qual supria o lugar da lei [escrita], por meio da qual os judeus são instruídos, de modo a se tornarem lei para si próprio.”

No estudo desse trimestre vamos ver a relação de Cristo com a Lei moral dos Dez mandamentos e, na lição específica dessa semana, veremos as leis que vigoravam nos dias de Cristo. Ao conhecê-las teremos uma melhor clareza para compreendermos o sentido exato do que é a Lei de Cristo.

Nações cristãs ou não tem as suas leis e em muitos casos, no que tange aos relacionamentos interpessoais, elas se assemelham com a Lei divina dos Dez Mandamentos. Caso Deus não tivesse implantado em cada ser uma noção do certo e do errado o mundo se tornaria inviável. Essa noção nem sempre serve de norte para todas as nossas atitudes. É a lei de Deus que deve nortear todas as nossas ações e o nosso comportamento.

Domingo

            Pompeu dominou toda a Itália e submeteu a Palestina ao seu domínio poucos anos antes do nascimento de Cristo. Aos 59 anos de idade ele foi derrotado por seu rival Augusto César e, este, criou o império Romano.         

A extensão do Império Romano abrangia uma vasta área geográfica, na qual estavam integrados diferentes povos. Para governar e administrar eficientemente o Império foi necessário criar um conjunto de leis que se ajustassem a todos os habitantes do mundo romano. Foi, então, neste contexto que os romanos criaram o direito romano, conjunto de regras jurídicas aplicadas inicialmente em todo o território do Império.

Quanto à abrangência do recenseamento, para alguns comentaristas, era universal enquanto para outros era regional e cada pessoa deveria fazê-lo em sua cidade natal.  Pelo que parece, não havia motivos que poupasse alguma pessoa de fazê-lo na data estipulada. Caso houvesse Maria não teria feito essa viagem tão incômoda.

Por outro lado, vemos José e Maria submissos às leis de seu tempo mesmo sob situações difíceis. Provavelmente José tenha sido o chefe de família que mais dificuldades tiveram para cumprir a ordem do imperador. Ele deixa uma lição para muitos nos dias de hoje que mais questionam do que obedecem às leis vigentes.

Augusto Cesar deu autonomia para que as terras subjugadas mantivessem as suas tradições e suas leis desde que não conflitassem com os princípios do seu império. Nos dias de Jesus a Palestina estava sob o seu domínio. Mesmo assim, era permitido que a nação judaica mantivesse as suas leis, tradições e costumes.

            Na minha juventude trabalhei em uma empresa dirigida por adventistas. Certa vez eu participava de um bate papo informal com alguns membros da diretoria. O assunto girava em torno de impostos. Foi então que o tesoureiro mencionou um em especial e o presidente logo completou: “E desse não tem como escapar.” Péssimo testemunho.

Segunda

            Mesmo sob o jugo romano os judeus tinham a liberdade de manter em vigor as suas leis que norteavam o sentido do direito. E foram com essas leis apoiados por testemunhas que uma pessoa seria condenada ou não. Perante essas leis Jesus foi íntegro. Porém, o mau uso delas O condenou à morte. Não foi difícil encontrar pessoas que testemunhassem falsamente contra Ele.

Um esclarecimento. Segundo muitos pregadores por aí, Deus era mau no Velho Testamento e, no Novo Testamento, passou por uma metamorfose radial e Se tornou bonzinho e amável. Deus abomina o pecado, mas ama o pecador. Quando Israel deliberadamente pecava contra Ele e começava a adorar ídolos, Deus aplicava a disciplina, mas os livrava cada vez que se arrependia de sua idolatria. Da mesma forma O vemos Se relacionando com os cristãos no Novo Testamento. Por exemplo, Hebreus 12:6 nos diz que “porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho.”

Tanto o Velho quanto o Novo Testamento foram dados para fazer o homem “sábio para a salvação” (II Timóteo 3:15). Quando estudamos mais de perto, o Velho e o Novo Testamento compreendemos que, em ambos, Deus é amor. Nós é que estabelecemos as diferenças por falta de um melhor conhecimento deste Deus que não muda. “Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” (Malaquias 3:6).

Veja que na Bíblia Deus estabelece uma diferença de tratamento entre aqueles que O conhecem e aqueles que não O conhecem. Ele estipulou leis específicas para o tratamento e proteção dos estrangeiros. Eles não conheciam os princípios de amor de Deus que regem o Universo. Para com os escravos também havia uma legislação específica de proteção e amparo. Mas ao tratar especificamente com Israel que conhecia plenamente a vontade divina e era o guardião de Suas normas e preceitos, Deus, muitas vezes, agia de maneira corretiva, ou até punitiva, para que se arrependessem. Era, também, uma advertência para os demais de que a transgressão não ficaria impune. Em todos os tempos “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23). Tanto o Seu método de salvação como a Sua justiça continuam os mesmos desde o Éden.

Mesmo com todos esses exemplos do passado muitos cristãos hoje tratam a Deus com zombaria e desrespeito. Mas Ele vai trazer a Juízo todas as coisas. E isso ficou bem evidenciado no Seu relacionamento com Israel no passado. “Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Coríntios 10:11).

Terça

            Jesus nasceu sob a égide da Lei cerimonial e Ele era o centro de toda essa Lei. Todo o cerimonial de sacrifícios realizado desde o Éden e que passou pelo Santuário Terrestre, pelo primeiro e segundo templo, apontava para o Messias que um dia viria como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

            A Lei cerimonial vigorou até o momento em que o véu do templo se rasgou de cima para baixo deixando em comum o santo e o santíssimo. Enquanto o sacerdote levantava o cutelo para sacrificar mais um cordeiro, Jesus morre no Calvário e o animal escapa. Sobre este significativo momento para a raça humana fala Ellen G. White: O sacerdote está para matar a vítima; mas o cutelo cai-lhe da mão paralisada, e o cordeiro escapa. O tipo encontrara o antítipo por ocasião da morte do Filho de Deus. Foi feito o grande sacrifício. Acha-se aberto o caminho para o santíssimo” (O Desejado de Todas as Nações, p. 757).

            Pena que muitas religiões pregam, sem fundamentação bíblica, que a morte de Jesus anulou todas as leis bíblicas vigentes na época incluindo os Dez Mandamentos. A morte de Jesus anulou a Lei Cerimonial porque essa existia única e exclusivamente por causa da transgressão da Lei de Deus.  O sacrifício de Jesus foi efetivado justamente para que os transgressores da Lei dos Dez Mandamentos tenham os seus pecados perdoados mediante arrependimento, confissão e abandono dos mesmos. Jesus morreu no lugar do pecador que deveria morrer por causa de suas transgreções. O pecador arrependido tem os seus pecados expiados no sacrifício de Cristo.

 

 

 

Quarta

            Em 1935 os nazistas criaram a Lei de Nuremberg que proibia o casamento entre judeus e alemães. O curioso é que muito antes dessa, foi instituída a Lei Rabínica que impede o casamento entre judeus e não judeus... Ela perdura até hoje. Esse é um claro exemplo de lei dos rabinos.

Além das leis rabínicas escritas existiam também as leis orais que eram passadas de pais para filhos. Esse conjunto de leis orais denominado de Mishná foi desenvolvido após a época dos escribas, em 300 a.C. até o ano 200.d.C, e que foram compiladas pelo rabino Judah Hanassi num livro que leva o próprio nome Mishná.

Para Walter Rehfeld, professor e doutor na área de filosofia da religião, todos os mandamentos foram dados a Moshe (Moisés) no Sinai junto com sua interpretação. O que foi escrito por Deus nas Tábuas de pedra corresponde a Torá. Lembrando que a Torá corresponde aos cinco livros do Pentateuco atribuídos a Moisés e foi ditado por Deus a Moisés no monte Sinai. Os Mandamentos seriam a sua interpretação. E acrescenta: “nós fomos ordenados a cumprir a Torá, de acordo com os Mandamentos. Este Mandamento é chamado de Lei oral”. Rehfeld confunde um pouco as coisas, pois apenas os Dez Mandamentos foram escritos em pedra e são eles que devem ser observados. Eles resumem não só o Pentateuco, mas toda a Bíblia. Apenas as ordenanças cerimoniais cessaram com a morte de Jesus. 

A lei oral seria como uma regulamentação da lei escrita. Por exemplo: guardar o sábado é um dos Dez Mandamentos, mas nenhum detalhe (dizem os comentaristas judeus) é fornecido sobre como deveria ser guardado, e essa orientação está na tradição oral. Dá para entender as causas dos constantes conflitos existentes entre Jesus e os rabinos que eram o braço direito dos fariseus, considerados os mais zelosos do cumprimento da Lei. Jesus realizou sete curas no sábado, o que para os judeus, seria uma contumácia (teimosia premeditada) na transgressão do sábado.

            Continuando o nosso estudo é oportuno um lampejo sobre o Talmud. Ele é uma compilação, que data de 499 d.C., de leis e tradições judaicas, consistindo-se em sessenta e três tratados de assuntos legais, éticos e históricos. Segundo Tev Djmal, comentarista judeu, “o Talmud define e dá forma ao judaísmo, alicerçando todas as leis e rituais judaicos. Enquanto o Chumash (o Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés) apenas alude aos Mandamentos, o Talmude os explica, discute e esclarece. Não fosse este, não entenderíamos e muito menos cumpriríamos a maioria das leis e tradições da Torá e o judaísmo não existiria”. O Talmude reforça e esclarece toda a regulamentação da lei feita pelos judeus.

Quinta

            O jovem rico tinha o conhecimento e a prática de toda a lei dos Dez Mandamentos como acontecia com qualquer bom judeu. A prática da Lei e a observância dela faziam parte do estilo de vida desse povo.

            Para os judeus o mandamento mais respeitado e que os tornavam realmente diferentes das demais nações do mundo era e é o sábado. E esse era o mandamento mais carregado de praxes esdrúxulas, praticas essas que mantinham o comportamento de Cristo sob contínua suspeita. Tanto assim, que Jesus evitava mencioná-lo, pois além de chover no molhado era mais um motivo para acirrar o ânimo dos judeus. Para eles, o Mestre não tinha moral para falar de sua observância uma vez que realizava curas nesse dia.

            Deus confiou ao povo judeu a responsabilidade de apresentar ao mundo a Sua vontade e refletir o Seu amor para com a humanidade. Mas ao mesmo tempo em que eles pregavam a lei se esqueciam do seu principal conteúdo: o amor. Enquanto pregavam “Não matarás” arquitetavam como tirar a vida de Cristo. O seu zelo pelo sábado era tão doentio que dentro desse macabro planejamento tudo foi feito cuidadosamente para que não acontecesse nas horas do santo dia.

            Ellen G. White afirma: “Quando Jesus veio a Terra, os judeus como nação haviam perdido o conhecimento do caráter de Deus. Embora reivindicassem ser o mais exaltado entre todos os povos, eles não observavam os mandamentos de Deus. Não refletiam o amor, que é o caráter de Deus” (The Youth’s Instructor, 26 de julho de 1894). Qualquer um deles sabia a Lei de cor, porém estavam longe de praticar a sua essência.

Conclusão

            No estudo adicional de sexta-feira encontramos a observação de que “os judeus sobrecarregaram a lei com regras que não foram planejadas por Deus.” Essa sobrecarga ao mesmo tempo em que demonstrava um zelo especial dos judeus para com a lei transmite a idéia de que Deus a fez incompleta. Isso significa um acinte à soberania divina.
                Deus nos criou e sabe o que é melhor para resguardar a nossa integridade e o nosso relacionamento com o próximo e com Deus. Se a “lei é santa justa e boa” não há como melhorá-la. Ela é completa e dispensa complementos e regulamentações.  Qualquer atitude nesse rumo deturpa o seu real sentido de existir. Jesus deixou isso bem claro

domingo, 23 de março de 2014

O custo do discipulado


Comentário da Lição da Escola Sabatina de vinte e dois a vinte e nove de março de 2014 preparado por Carmo Patrocínio Pinto, ex-diretor do Jornal Esperança e autor de Reavivar a Esperança, uma meditação para qualquer ano. O comentarista é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga, DF.

 

Introdução

            O mundo está cheio de igrejas descompromissadas com as doutrinas bíblicas. No Brasil é muito fácil ser cristão, ainda mais viver o cristianismo como milhares pregam. O verdadeiro discípulo é aquele de se propõe a andar como Ele andou. Isso envolve situações como abrir mão da ganância e desejo de possuir riquezas. Envolve também, apego aos princípios bíblicos. Estes, aparentemente, tolhem muitos dos nossos desejos e limitam as nossas ações.

            Muitos discipuladores estão oferecendo um Céu aqui na Terra. O discípulo receberá todas as bênçãos a nós prometidas no Céu já enquanto vive aqui. Milhares se tornam discípulos com o objetivo de alcançá-las e usufruí-las nesta vida. Bênçãos materiais, geralmente é o carro chefe de suas pretensões.

            São tantas as promessas que o Céu perde o significado e o desejo de viver lá desaparece como o gelo que se desfaz sob qualquer alteração do clima. Ser discipulador e ser discípulo envolve muito mais do que muitos pregam e ensinam hoje.

            Muitos discípulos ao invés de pagar o preço do discipulado esperam receber paga por isso.  Não estão dispostos a abrir mão das bênçãos oferecidas ainda nesta vida como riquezas, felicidade, respeito e status. O caminho a ser trilhado pelos verdadeiros discípulos de Cristo exige abrir mão de tudo isso. Aliás, tudo pode acontecer a um fiel discípulo, porém não como recompensa ou paga pela sua decisão.

            Paulo pagou um alto preço como discípulo e como discipulador. Disse ele: “Senão o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações” (Atos dos Apóstolos 20:23) e mais: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3:12).

            Ser discípulo tem um custo muito alto. E por que tantos no passado voluntariamente foram discípulos e passaram pela vida sem reclamações e sem questionamentos? O próprio Paulo dá a resposta: “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” (2 Coríntios 5:14). É o amor a Cristo que torna o Seu jugo suave e quase imperceptível.

 

Domingo

            Se o que caracteriza o evangelho é a união entre os irmãos, como Jesus se apresenta como Aquele que divide as pessoas e estabelece indiferenças e contrastes? Aliás, a Sua própria declaração se apresenta como o maior contraste da história. Disse Ele: “Cuidais vós que vim trazer paz a terra? Não, vos digo, mas antes dissensão;
Porque daqui em diante estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três” (
Lucas 12:51-52).

            Ele declarou: “Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?” A resposta a essa pergunta está nas milhares de fogueiras que os perseguidores ascenderam para tirar a vida daqueles que colocaram Cristo em primeiro lugar. Esse processo divisionário se estabeleceu logo no início do Seu ministério (Lucas 12:49).

“E havia grande murmuração entre a multidão a respeito dele. Diziam alguns: Ele é bom. E outros diziam: Não, antes engana o povo” (João 7:12). Sejamos repetitivos e voltemos a Paulo: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3:12).

            A vida cristã não é um mar de rosas como muitos apregoam por aí. Para muitos a decisão de aceitar a Cisto como o Seu salvador marca o início de muitas tribulações. Mesmo assim a promessa de Deus é: “Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Salmos 119:165).

 

Segunda

            Em Lucas 14:27, Jesus apresenta a condição “sine qua non” para ser seu discípulo. Sem a disposição de tomar a cruz de Cristo sobre os ombros não tem como testemunhar Dele para o mundo. É interessante que a nossa vontade carnal deseja tudo o que está ao nosso redor. Ela nos direciona para uma visão horizontal de nossas vontades. É nessa condição que deparamos com a vontade divina que vem de cima. Ela cruza com o nosso querer humano e estabelece uma área de conflito. Renunciar o nosso querer e aceitar a direção divina em nossa vida é aceitar a cruz de Cristo.

            Quando Jesus adiantou para os discípulos o que aconteceria com Ele em Jerusalém, Pedro disparou com uma severa repreensão: “E Pedro, tomando-O de parte, começou a repreendê-Lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso” (Mateus 16:22).

            É interessante que o argumento usado por Pedro foi: “tem compaixão de Ti”. Esse é o mesmo argumento usado por Satanás em todos os tempos. O jovem rico teve “compaixão” de si mesmo e recusou a vender as suas posses e dar aos pobres. O egocentrismo falou mais alto. Ele se recusou a ter compaixão pelos pobres e preferiu ter compaixão de si mesmo.

            Como pode uma pessoa recusar um trabalho que o tornará milionário dentro de pouco tempo apenas por causa do sábado. Como é ver os seus filhos privados de algum bem só por causa disso? Não será falta de compaixão para consigo mesmo a para com a sua família? Jesus foi claro. Tomar a Sua cruz é estar disposto a ser perseguido, preso, odiado, maltratado e morto por Ele.

            Em minhas corridas nas madrugadas encontro com muitos moradores de rua e às vezes converso com eles. Nesta semana uma cadelinha magricela acompanhava um deles e, ao me aproximar, veio veloz em defesa do seu dono. Um dono que não tem nada para lhe oferecer. Mas o amor da paupérrima Tekita é incondicional. Jesus nos ama tanto e nos oferece vida eterna. E quantos, no momento crucial, se recusam a carregar a Sua cruz e O abandonam a mercê de escárnio e impropérios.

 

Terça  

            Jesus esclarece que tomar a Sua cruz e segui-Lo deve ser uma atitude bem pensada. Ela envolve renunciar riquezas, conforto, prazeres, amizades, fama e muito mais. Ele nos aconselha a medir as consequências e depois então, estaremos em condições de ser um de Seus discípulos. “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:33).

            “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que Lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-Se à destra do trono de Deus” (Hebreus 12:2). Suportar a cruz é o desafio proposto a cada discípulo. O bom atleta de tudo se abstém. Diz Paulo: “E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível” (1 Coríntios 9:25).

Pedro apresenta nove qualidades de um verdadeiro discípulo. Ele menciona: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade” (2 Pedro 1:5-7).

A nota da pergunta de terça-feira esclarece que tudo em nossa vida deve ser entregue a Cristo e qualquer coisa não entregue será o nosso ídolo e ocupará o Seu lugar em nosso coração.  Para alcançarmos vitória Ele “nos oferece poder para vencer nossos defeitos de caráter. Cada apetite, emoção e inclinação intelectual podem estar sob a orientação de Seu Espírito”.

 

Quarta

            Hoje, antes de começar a trabalhar no comentário da Lição, estive meditando em um dos grandes privilégios que teremos no Céu. Conversar com patriarcas do passado e saber como foram as suas experiências com Deus. Que tal um papo com Enoque? E o que ouviremos de Isaque quando ele falar de sua experiência sobre o altar vendo o cutelo reluzindo ao Sol pronto para ceifar a sua vida? Serão encontros que por si só já compensa estarmos lá. E você já imaginou o que representa ouvir de Cristo a Sua experiência no Calvário e sabedor de que todo o Seu sofrimento foi para que tivéssemos vida com abundancia?

            Sabemos que o Céu encerra muito mais do que esses flashes de glória. Diante dessas maravilhas será fácil concluirmos que a nossa leve e momentânea tribulação não significa nada.

            O jovem rico fez uma tomada de preço e concluiu que seguir a Jesus envolveria um alto custo, ou seja, perderia toda a sua fortuna. Ao vê-lo se retirar, Pedro fez um rápido balanço de sua vida e concluiu que havia deixado tudo para seguir o Mestre. Parece que para Pedro a coisa foi mais fácil. Ele possuía apenas uma parte de um barco velho. Mas ele foi mais além. Então pergunta: “Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos?” (Mateus 19:27).

Pedro esperava ser recompensado. Jesus entendeu o seu lado humano de ver as coisas e respondeu: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna” (Mateus 19:29).

Porém, o mais importante que Pedro deixou não foi apenas o barco. Ele deixou para traz a sua impetuosidade, a sua valentia (tentou assassinar o servo do sumo sacerdote) deixou também a sua covardia. Cada um de nós paga um preço. Pode ser um barco velho mas, talvez, o seu valor sentimental supere em muito o valor monetário.

Por que não cantarmos com mais fervor: “Compensa servir a Jesus mais e mais”?

 

Quinta

            A primeira ressurreição vai identificar o grupo daqueles que ouvirão Cristo dizer: “...Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Essas pessoas viveram situações extremas e muitas delas morreram de maneira heroica. Elas saberão contar o preço que pagaram para participar da primeira ressurreição.

            Por outro lado, outro grupo aceitou as insinuações do inimigo. “O inimigo hoje compra almas a preço bem baixo. "Por nada fostes vendidos" (Isa. 52:3), é a linguagem das Escrituras. Um vende a alma pelos aplausos do mundo, outro por dinheiro; um para satisfazer a paixões baixas, outro por diversões mundanas. Essas transações são efetuadas diariamente. Satanás faz ofertas por aqueles que são aquisição do sangue de Cristo, e compra-os a baixo preço, apesar do preço infinito pago pelo seu resgate” (Testemunhos Seletos - Volume 2, 28).

            A vida do verdadeiro discípulo é renunciar uma vida de vanglorias por um futuro “mais excelente” e, mais do que isso: influenciar pessoas, quantas for possível, a fazer o mesmo.

 

Conclusão

            A parte de sexta-feira mostra o horripilante quadro do fim de todas as coisas. A terra em convulsão sendo abrasada pelo fogo que consome raiz e ramo. Mais uma vez me vem à lembrança um colportor que conheci. Ao ver os grandes edifícios das grandes metrópoles e o surrupiar de pneus pelas ruas ele dizia: “Tudo está pronto para o fogo do Malaquias.” Milhões querem viver apenas o hoje sem externar qualquer preocupação com esse amanhã que se aproxima.

            Ao ver as renuncias que fazemos muitos nos consideram um pequeno grupo de idiotas que vivem a utopia de um mundo melhor. Mas a Pátria que buscamos existe e já podemos divisar os seus alvores. Enquanto os fundamentos da Terra vacilam, nós semelhante a Abraão e os demais heróis da fé, buscamos a cidade que tem fundamento. “Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus”
(
Hebreus 11:10).

            Esta é a cidade que espera por cada discípulo que na undécima hora de nosso mundo se torna um discipulador. 

 

No próximo sábado novo trimestre, nova lição com um novo tema. Aproveitemos essa oportunidade para renovarmos a nossa fé e a nossa confiança na graça de Cristo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Discipulando líderes espirituais


Comentário da Lição da Escola Sabatina de oito a quinze de março de 2013 preparado por Carmo Patrocínio Pinto, ex-diretor do Jornal Esperança e autor de Reavivar a Esperança, uma Meditação para qualquer ano. O comentarista é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga, DF.

 

Introdução

            A lição dessa semana mostra a preocupação de Cristo em escolher um grupo de pessoas capazes de levar avante a Sua obra retentiva. Eles deveriam fazê-la conhecida entre os homens mesmo diante de situações adversas.

            Esses líderes necessitavam ter duas qualidades indispensáveis para que o êxito viesse à tona. Eles deveriam ter o conhecimento doutrinário e a experiência. Essas qualidades não seriam outorgadas momentaneamente como num passo de mágica. Seria um processo que envolveria tempo e isso poderia diferenciar de uma pessoa para outra.

            O Departamento de Recursos Humanos de Cristo não foi montado em uma sala sofisticada, com ar condicionado e sofás aconchegantes e nem foi desenvolvido pessoalmente por Ele. Em sua forma humana o Salvador dependia de orientação do alto e foi ao relento de uma noite de oração que as coisas foram resolvidas. Jesus sentiu a Sua limitação humana e procurou de Deus a direção de que necessitava.

            Em um primeiro momento o resultado dessa noite de oração pareceu ser um fracasso total. Ele desceu do monte e passou a convidar pessoas, aparentemente, sem nenhuma qualificação. Uns eram pescadores rudes e impulsivos. Outros eram coletores de impostos ricos e odiados pela população. E tinha aqueles, como Tomé que exigia ver para crer. Que utilidade teria um homem desses em um ministério onde a ordem natural era avançar pela fé?

            Para completar a situação desfavorável esse grupo não dispunha de uma sede administrativa com um auditório equipado com poltronas reclináveis. Eles não tinham salário e daquele dia para frente seriam meros andarilhos acompanhando um Líder que não tinha onde reclinar a cabeça.

            Não nos esqueçamos do título da Lição: “Discipulando líderes espirituais.” Deus sabia que aquele pequeno grupo de pessoas, aparentemente sem qualificação, oferecia margem para serem trabalhadas. Eles tinham a humildade suficiente para aceitar ser ensinados e, na companhia de Cristo, adquiriram uma experiência que os capacitaram a dar a vida pelo ministério que abraçaram.

            É surpreendente ver como Deus trabalha. Paulo falando desses baluartes do evangelho foi enfático: “Da fraqueza tiraram força.” Tudo isso porque Deus é especialista em tirar força de onde só vemos fraqueza e provável fracasso. No Pentecostes eles fizeram da oração a sua única ferramenta. Que força tem a oração!

 

Domingo

             Não sabemos por quanto tempo Jesus exerceu o Seu ministério antes da escolha de Seus doze discípulos. Os três primeiros evangelhos dão conta de que o Salvador já estava em franca atividade e já tinha muitos seguidores e dentre estes Ele escolheu os doze.

            Muitos deles já haviam sido convidados pelo Mestre para segui-Lo como Mateus, Pedro, Felipe e outros. O Salvador já havia realizado muitos milagres como a cura da sogra de Pedro, a multiplicação dos pães, a cura de um endemoniado gadareno, a pesca maravilhosa e muitos outros.

            Pelo que parece Jesus já conhecia bem aqueles que seriam os Seus discípulos. Isso mostra que o Salvador poderia fazer a escolha sem reservas. Mas o Mestre desconfiou de Sua visão humana e, antes de proceder a escolha, subiu ao monte e passou a noite em contato com o Pai na busca de uma orientação segura. Caso estivéssemos vivos nos dias de Cristo estranharíamos por completo o resultado dessa noite de oração. Talvez, o próprio Cristo tivesse encontrado dificuldades para aceitar.

            Foi com essas figuras heterogêneas que o evangelho se espraiou pelo mundo de colina após colina e de século após século chegando até nós. Uma vez escolhidos, os discípulos foram capacitados e até certo ponto igualados. Excetuando Judas, os demais tiveram participação marcante ao firmarem os alicerces da Igreja Primitiva.

            A oração foi a chave do êxito do início da pregação do evangelho e será a oração que nos proporcionará um fim glorioso. Há um binômio indispensável para o avanço da pregação do evangelho. Quando eu era criança gostava de ver a Igreja cantar: “trabalhar e orar na seara do Senhor”. É necessária uma prática viva dessa verdade que temos cantado por tantos anos.  

 

Segunda

            Hoje um item bastante observado na escolha de um profissional para trabalhar em uma empresa é a entrevista. O pretendente apresenta o seu currículo que identifica o seu preparo técnico para desenvolver determinada função dentro de uma empresa. Porém, ninguém é admitido sem passar pelo crivo de uma entrevista. É ela que vai clarear para o empregador a capacidade de o novo funcionário por em prática o seu potencial técnico. Esse é o momento em que a sua experiência será testada e aprovada ou não.

            No âmbito do discipulado é o Espírito Santo que nos proporciona não só conhecimento doutrinário para discipular com eficiência como nos oferece no dia a dia a experiência de vida capaz de fazer a diferença na vida das pessoas que estão ao nosso redor.

            Creio que se fossemos avaliados por um mensageiro celeste ele imprimiria um grande peso no nosso relacionamento íntimo com Deus. Estamos buscando diária e fervorosamente manter esse vínculo com o nosso Pai Celestial?

 

Terça

            Nas colunas de classificados é comum depararmos com anúncios parecidos com este: “Empresa de renome internacional precisa para os seus quadros “Diretor Financeiro”, formado em Economia ou gestão com mais de cinco (5) anos de experiência profissional”

Anúncios assim dão margem para alguns optarem pela explicação de Kan, filósofo cristão nascido na Prússia. Ele afirmava que todo conhecimento tem a sua origem na experiência. Segundo ele, o conhecimento sem a experiência de nada vale e, que, a experiência diária é a base do conhecimento.

            A irmã Ellen G. White é clara ao afirmar: “Se a Palavra de Deus fosse estudada como deveria ser, as pessoas teria tal clareza de mente, nobreza de caráter e firmeza de propósitos, como raramente se vê nestes tempos. Milhares de homens que ministram no púlpito são carentes das qualidades essenciais de mente e caráter, porque não se aplicam ao estudo das Escrituras” (Review and Herald, 17 de julho de 1888). Ela deixa claro que unicamente o estudo da Bíblia é que nos qualifica com a experiência de que necessitamos em nosso empenho de discipular. A prática da Palavra nos enriquece da experiência de que necessitamos. Voltando a Immanuel Kant ele afirma: É minha fé na Bíblia que me serviu de guia em minha vida moral e literária. Quanto mais a civilização avance, mais será empregada a Bíblia.”

            Em Lucas 6:20-49 Jesus deixa claro que a prática do conhecimento que adquirimos pela Palavra é que vai fazer a diferença no dia final. Essa pratica diária nos dá a experiência de que necessitamos para discipular as pessoas.

 

Quarta

             O convite de Jesus para trabalhar em Sua vinha se estendeu a todas as pessoas. Ricos e pobres, humildes e poderosos, judeus ou gentios, todos foram convidados a participar das alegrias do evangelho. O Seu convite estendido a todas as classes sociais desenvolveu repulsa por parte da maioria dos judeus que representavam a elite de Seu tempo.

            Como um rabino ou sacerdote envolto na capa da cultura e status que o cargo lhe outorgava se juntaria a um Pedro pescador e ignorante, ou a um João explosivo, filho do trovão? Como aceitar um evangelho que nivela as pessoas?

            A lição apresenta casos raros como Nicodemos e José de Arimatéia. Mas não devemos nos esquecer de Mateus e Zaqueu. Com certeza eles eram pessoas riquíssimas. A Bíblia apresenta também um grupo de mulheres abastadas que seguiam a Jesus e colaboravam na manutenção do Seu ministério. E Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens” (Lucas 8:3). Nesse caso temos um problema sério. Como um líder judeu que se orgulhava de ter nascido homem se juntaria a um Jesus que não se envergonhava de ser sustentado por mulheres?

            Aos doze anos Jesus apresentava um conhecimento doutrinário que deixou os sacerdotes e rabis extasiados. Como um judeu legítimo Ele jamais Se uniria a determinadas pessoas como pescadores, publicanos e samaritanos. Jesus não colocou a cultura como um referencial de Suas escolhas. A Sua prioridade era ver se as pessoas, independente da cultura, classe social ou financeira estavam dispostas a aprender Dele e com Ele. O seu convite era: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11:29). Qualquer um que estivesse disposto a esse desafio estaria apto a ser um de Seus discípulos.

 

Quinta

            O Líder máximo do Cristianismo subiu para o Céu. Aqui ficaram os Seus discípulos, homens falhos que disputavam entre si o sonho de ser o líder substituto do grande Mestre. Eles não tinham nenhum curso específico de liderança e nem desfrutavam da confiança dos líderes religiosos de então. Aparentemente a Igreja Cristã estava condenada ao fracasso já na sua origem.

            Mas algo aconteceu e fez a diferença. A ordem divina foi de que eles ficassem em Jerusalém reunidos em oração e Jesus acrescentou: E, estando com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, que, disse ele, de mim ouvistes” (Atos 1:4) e “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1:8).

            Eles foram fieis a essa ordem divina e perseveraram unidos em oração. O primeiro impacto aconteceu. Notaram que não eram mais doze apóstolos. Faltava Judas que se perdeu e por orientação do Espírito Santo Matias foi escolhido para integrar o grupo.

            Com a equipe completa perseveraram na oração e o resultado encontramos em todo o livro de Atos. Mas a narrativa de uma igreja vitoriosa começa em Atos dois onde lemos: “E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua” (Atos 2:2-6).

            O fogo do Espírito Santo reduziu a cinzas as diferenças e disputas que existiam entre eles. O evangelho ultrapassou fronteiras geográficas e etnicas e chegou até nós. O principal legado de Jesus foi a promessa do Espírito Santo mediante oração insistente e perseverante. Os apóstolos atenderam a ordem de Cristo e Ele cumpriu a promessa. O mesmo desafio é feito para nós hoje.

 

Conclusão

            Os discípulos tinham o conhecimento limitado do poder de Deus para salvar. O Espírito Santo dilatou esse conhecimento e deu a eles a experiência de que necessitavam. Antes, falhos, traidores, egocêntricos e medrosos. Depois, com o Espírito Santo, destemidos, humildes e até certo ponto, atrevidos. 

            A fórmula continua a mesma. A única maneira de sermos líderes consagrados e  espirituais está na oração e consequente atuação do Espírito Santo em nossa vida.

 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Discipulando poderosos


Comentário da Lição da Escola Sabatina de vinte e dois de fevereiro a 1º de março de 2014 preparado por Carmo Patrocínio Pinto, ex-diretor do Jornal Esperança e autor de Reavivar a Esperança, uma meditação para qualquer ano. O comentarista é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga, DF.

 

Introdução

            O IDE de Jesus a nós endereçado em Mateus 28:19-20 é um imperativo que apresenta a nossa responsabilidade de anunciar a toda criatura as maravilhas da salvação. Disse o Mestre: Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:19-20).

            Sou bastante tímido para falar do evangelho para as pessoas e, principalmente, se são famosas e ricas. O problema é que esquecemos que essas pessoas, semelhantes às outras, sentem necessidades que só o evangelho pode atender. O comentário da Lição na página 116 nos encoraja. Diz o texto: “Muitas vezes, os poderosos têm tantas inseguranças quanto as outras pessoas. Eles só têm mais recursos com os quais podem mascará-los.”

            A diretora da escola pública onde fiz o primário era uma católica fervorosa. Eu tinha receios de falar com ela e despertar preconceitos. Certa vez, escrevi uma peça para ser apresentada no dia das mães. Imaginei realizar a programação em um clube da cidade e convidar as autoridades municipais para o evento. Como parte da programação decidi envolver todos oe estudantes da cidade em um concurso onde cada um escreveria uma carta para a sua mãe. Algumas seriam sorteadas no decorrer da programação. Para que tudo desse certo eu tinha de conseguir o apoio daquela diretora católica. Fui tremendo falar com ela. Após uma rápida exposição do projeto, com um sorriso, ela se expressou: “Admiro voces (se referindo a nosssa igreja) pois etão sempre fazendo alguma coisa interessante.”

            Quando estudante de enfermagem eu fiz parte do diretório académico da faculdade. Naquela época imaginei criar um mural onde seriam expostos jornais de vários estados do Brasil. Enviei cartas e visitei vários jornais solicitando o enviu de algum exemplar para a faculdade. Eu queria que um estudante vindo de qualquer estado do paíz encontrasse ali na escola alguma referência de sua região. Tímido e tentando me esconder dentro de mim mesmo fui falar com um respeitado jornalista de um conceituado jornal de São Paulo. Com um sorriso ele me disse: “Eu vou atender o seu pedido desde que você atenda o meu.” e foi ao ponto: “ Quero que você escreva um artigo falando de sua faculdade. Ele será publicado na Coluna dos Universitários.” Foi a primeira vez que  um jornal de grande circulação publicou uma matéria sobre a Faculdade Adventista de Enfermagem e foi a primeira vez que me vi participando de um jornal tão conhecido.

            Os dois episódios nos mostram que por mais simples que sejamos Deus pode e quer nos usar “...para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”  (1 Pedro 2:9). Basta que estejamos dispostos, o Senhor completará o que nos falta.

 

Domingo

            Jesus viveu em uma época em que o império romano dominava com ferro e fogo. A carga tributária, já exorbitante, era acrescida conforme a ganancia de cada coletor de impostos. Isso fazia com que esse assunto se tornasse delicado. Qualquer opinião a respeito poderia ser interpretada como subversiva aos interesses do imperador. Foi nessa conjuntura que um grupo de espias contratados pelas lideranças religiosas de então se lançaram ao trabalho de espionarem a vida de Cristo no intuito de apanhá-Lo em alguma situação de confronto com o imperador César.

Eles perguntaram a Jesus se era lícito pagar os altos impostos cobrados pelo imperador. Jesus pegou uma moeda e respondeu sem gaguejar: “De quem tem a imagem e a inscrição? E, respondendo eles, disseram: De César. Disse-lhes então: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:22-25).

Provavelmente Jesus decepcionou aquele grupo de detetives. A Sua resposta demonstrou a necessidade de se manter fiel às instituições e aos poderes constituídos.

Paulo sabia como ninguém dos horrores cometidos pelos imperadores. Mesmo assim o apóstolo é enfático: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Romanos 13:7).

Vivemos em momentos de agitação no mundo. Em vários países, inclusive no Brasil, a população tem saído às ruas protestando contra os governos instituídos. Compreendemos que muitas destas reivindicações são honestas mas qual deve ser a nossa postura?

             Veja o conselho de Ellen G. White: “A Palavra de Deus precisa ser reconhecida como estando acima de toda a legislação humana. Um "Assim diz o Senhor", não deve ser posto à margem por um "Assim diz a igreja", ou um "Assim diz o Estado". A coroa de Cristo tem de ser erguida acima dos diademas de autoridades terrestres. 

Não se nos exige que desafiemos as autoridades. Nossas palavras faladas ou escritas devem ser cuidadosamente consideradas, para que não sejamos tidos na conta de proferir coisas que nos façam parecer contrários à lei e à ordem. Não devemos dizer nem fazer coisa alguma que nos venha desnecessariamente impedir o caminho. Temos de avançar em nome de Cristo, defendendo as verdades que nos foram confiadas” (Atos dos Apóstolos, p. 69).

 

Segunda

            Os lideres religiosos dos dias de Jesus mantinham uma relação distorcida de respeito para com a lei. Eles fizeram da lei uma carga difícil para o povo. Em sua falha regulamentação da lei eles acrescentaram situações difíceis de serem harmonizadas pela população. A Palavra de Deus não precisa ser regulamentada. Ela já é completa.

            O Salvador nunca denegriu a observância do sábado e não podia permitir que o dia do Senhor ao invés de bênção se tornasse em um dia de distanciamento do sofrimento alheio. Jesus chegou a dizer que eles atavam sobre o povo fardos difíceis de serem carregados e nem mesmo se propunham a ajudá-los a carregar. Parece que a liderança religiosa daquele tempo se colocava acima da lei, pois se considerava sem pecado. Eles não se misturavam com publicanos e pecadores.

            Os fariseus se escandalizaram quando o Salvador permitiu que os discípulos apanhassem espigas no dia de sábado para se alimentarem. E quando Ele se propôs a curar alguns enfermos nesse dia o tempo fechou de vez. Diz a Bíblia: “Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra Ele, em como lhe tirariam a vida” (Marcos 3:6).

            Jesus vendo a estranheza deles fez uma pergunta ingênua: “Nunca lestes a Bíblia?” Provavelmente a pergunta se transformou em provocação. Não era admissível que um fariseu não fosse um assíduo leitor da Bíblia. Claro que os fariseus liam a Bíblia. O problema deles era semelhante a muitos leitores de hoje. Apenas veem na Bíblia aquilo que lhes interessam. E essa é a causa de temos a Babilônia religiosa de nossos dias.

            Jesus não deixou os líderes religiosos de então fora do Seu projeto missionário. Mesmo usando de toda a prudência e amor, ao mexer nessa caixa preta o Salvador estava correndo risco de morte.

 

Terça

           Na ierarquia militar romana o centurião era o sexto na cadeia de comando de uma legião. Abaixo dele tinha o Optio que era o adininistrador da centuria e os soldados. Acima dele estavam por ordem: General, Legado, Prefeito do acampamento, Tribuno e o Centurião-Chefe. Ele tinha oitenta e três homens sob o seu comando (Outros escritores afirmam que ele comandava cem homens).  Ele era a espinha dorsal do exército romano. Um centurião recebia esse título pelos atos de bravura que praticava enquanto soldado.

            É curioso que o centurião mencionado por Mateus estava desesperado. O motivo não era a doença de um filho ou de um soldado de destaque. Era um servo. Tais pessoas, via de regra, não desfrutavam de nenhuma consideração por parte de seus senhores ainda mais sendo esse um militar.

A Bíblia apresenta dois casos onde temos a presença de um centurião. Foi um centurião que comandou a prisão e morte de Jesus. “E o centurião, vendo o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Na verdade, este homem era justo” (Lucas 23:47). E foi um centurião que escoltou Paulo e os demais prisioneiros por ocasião do naufrágio. “Mas o centurião cria mais no piloto e no mestre, do que no que dizia Paulo” (Atos 27:11).

Com certeza um centurião era odiado pelos judeus. Qualquer motim dentro do império romano cabia ao centurião sufocá-lo. Provavelmente ele tenha procurado todos os recursos médicos da época. Condições para isso ele tinha. Restava apenas uma esperança: um Andarilho judeu que serpenteava por aquelas regiões. Alguém que estava despertando a atenção do exército romano. Praticamente Jesus era um inimigo em potencial. Diante de tudo isso o centurião tomou algumas decisões. Ele se humilhou. Não se julgava dígno de receber Jesus em sua casa que, por sinal, não era qualquer casa. Ele despertou fé. “Fala apenas uma palavra e meu criado será curado.”

            Jesus não só curou o servo daquele militar como usou a sua atitude para mostrar que enquanto os judeus (que estavam perto) O rejeitavam, vinham pessoas de “longe” à procura de salvação. “E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé. Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mateus 8:10-12).

 

Quarta

            A lição de quarta feira apresenta a difícil peregrinação de Jesus pelos tribunais e autoridades horas antes de Sua morte. Confesso que fiquei tocado ao ler a nota da pergunta quatro. Creio que qualquer coisa que eu venha a escrever a respeito servirá apenas para ofuscar a beleza do comentário do autor da lição.

            Apena vou transcrever a parte final da nota: “Não obstante o aparente insucesso do testemunho de Jesus diante de homens poderosos, algo maravilhoso aconteceu, pois, de acordo com Atos 6:7, não apenas o número de discípulos se multiplicou, mas “um grande número de sacerdotes obedeciam a fé” (NVI). Somente Deus sabe quantos desses sacerdotes estavam ouvindo e assistindo Jesus naquelas horas finais.”

 
Quinta

            É comovente ver o fervor dos apóstolos no livro de Atos dos Apóstolos. Eles foram destemidos, intrépidos, despojados e incansáveis na pregação do evangelho. Eles acreditaram na promessa feita por Jesus: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai” (João 14:12).

Essa promessa é extensiva a todos nós que vivemos no tempo do fim. A promessa divina é que a explosão evangelística que aconteceu nos dias dos apóstolos se repetirá com maior força nos dias finais da história desse mundo. Para a nossa alegria o livro de Atos dos Apóstolos ainda não foi concluído. Falta o capitulo  final narrando os feitos da igreja de nossos dias. Caso algum de nós não esteja disposto a escrever uma parte desse capitulo, dificilmente teremos o nosso nome no Livro da Vida. 

            O que temos feito para dar sequência a esse relato monumental? Como tem sido a nossa participação na pregação desse evangelho eterno?  Deus poderia ter confiado aos anjos celestiais à mensagem do evangelho e toda a obra de amoroso ministério. Poderia ter empregado outros meios para realizar o Seu propósito. Mas em Seu infinito amor preferiu tornar-nos cooperadores Seus, de Cristo e dos anjos, a fim de que pudéssemos participar da bênção, da alegria e do reerguimento espiritual que resultam desse abnegado ministério” (Caminho a Cristo, pág. 79). 

“A igreja é o instrumento apontado por Deus para a salvação dos homens. Foi organizada para servir, e sua missão é levar o evangelho ao mundo” (Atos dos Apóstolos, p. 9). “O evangelho possui ainda o mesmo poder, e por que não deveríamos testemunhar hoje idênticos resultados?” (Beneficência Social, p 15).

 
Conclusão

            “A turbulência vulcânica geralmente fica oculta sob a crosta da montanha... Da mesma forma, o potencial explosivo do movimento de Jesus permaneceu escondido durante o Seu ministério terreno. Entretanto, após a Sua ressurreição, o reino entrou em erupção, evidenciada pelas conversões em massa, mesmo entre pessoas influentes” (Lição, p. 113).

            Sabemos que uma segunda explosão faz parte do cronograma de Deus. Essa explosão acontecerá quando nós, como igreja, desvencilharmos das coisas desse mundo e dedicarmos por inteiro ao plano divino. Aí, então, o Senhor fará grandes coisas por nós.