segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Domando a língua

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Comentário da Lição da Escola Sabatina de oito a quinze de novembro de dois mil e quatorze, preparado por Carmo Patrocínio Pinto ex-diretor do Jornal Esperança e autor de Reavivar a Esperança, uma meditação para qualquer ano. O comentarista é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de Taguatinga.

 

Introdução

            Na maioria das vezes em que tropeçamos no falar terminamos por atropelar alguém. Quando tropeçamos e caímos sozinhos ainda vala. O pior é quando tropeçamos no falar e, ao invés de cairmos terminamos por derrubar pessoas ao nosso redor. Tiago não poupa a sua língua em nos descascar. Ele é enfático, radical e preciso. Ele considera perfeito aquele que consegue domar a língua e ai, eu concluo: pensando em seu conceito estou longe de ser perfeito. Às vezes quero proferir um punhado de palavras e quando vejo produzi uma grande trovoada. Victor Hugo já dizia: “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” Que tal sermos senhores de nossa língua, para não sermos escravos de nossas palavras. Essa não é uma tarefa fácil.

Dizem por ai que o peixe morre pela boca, mas o homem às vezes morre por causa do que ele tem dentro da boca. A língua mata amizades e expulsa a felicidade.

Os problemas com a língua não são restritos apenas na nossa maneira de falar, se aplicam também ao que omitimos de falar quando é necessário falar. Ezequiel apresenta uma mensagem forte. Diz ele: “Quan­do eu disser a um ímpio que ele vai morrer e você não o advertir nem lhe falar para dissuadi-lo dos seus maus caminhos e salvar a vida dele, aque­le ímpio mor­rerá por sua iniquidade; para mim, porém, você será responsável pela morte dele” (Ezequiel 3:18). Esse é o grave pecado da omissão.

Outro pecado susceptível, principalmente, às pessoas dotadas de boa oratória é o da vanglória. É usar o púlpito para a projeção do eu. Conheci o padre Antônio. Ele era um exímio professor de português. De vez em quando ele desaparecia da sala de aulas por até trinta dias. Certa vez o encontrei alcoolizado em uma das praças de nossa cidade. Com voz pastosa ele me disse: “O meu fracasso foi que me vangloriei de muitas glórias.” E continuou: “Eu sempre foi um bom orador e era o escolhido para falar em festas de aniversários ou casamentos. Eu me julgava o cara. Nas festas eu aprendi a beber e, hoje me retiro para o mato onde permaneço ao relento bebendo por semanas. Tenho vergonha de beber diante de meus alunos.” Cambaleante ele desapareceu na escuridão da noite.

Geralmente o verbo domar é aplicado quando propomos domesticar um animal arredio. E quando se trata de um animal selvagem, poucas pessoas se atrevem a adestrá-lo. Em alguns casos é mais difícil domar um animal selvagem do que domar a língua. Jesus nos deixou uma seria advertência: "Porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado." (Mateus 12:37).

 

Domingo

            Tiago chama a nossa atenção para a responsabilidade que temos no ensinar. Na tradução católica desse texto a mensagem é apresentada de maneira mais enfática. Diz o texto: “Meus irmãos, não haja muitos entre vós a se arvorar em mestres; sabeis que seremos julgados mais severamente” (Tiago 3:1- Versão Católica). Com frequência vemos alguns irmãos sedentos para usar o púlpito. A expressão “arvorar” dá a ideia de alguém despreparado e que se oferece para transmitir a mensagem e, sempre que o fazem, deixam a desejar. Muitos deles não imaginam a responsabilidade que isso implica.

            Têm outros que se arvoram como pregadores tendo objetivos escusos. Deturpam o texto bíblico no afã de conseguir o máximo de dinheiro e ajunta de maneira inescrupulosa grandes fortunas.

            O ensinar não está afeto apenas a quem usa o púlpito. No nosso testemunho diário estamos sempre transmitindo algum conhecimento que pode ser positivo ou negativo. A responsabilidade atinge a cada crente em sua esfera de ação.

            Um ponto importante que não pode ser esquecido é o fato de algum pregador que conhece a mensagem, apresentá-la de maneira superficial no intuito de simplesmente ser agradável aos seus ouvintes.

            Em qualquer lugar que estejamos e em qualquer situação as nossas palavras devem sempre ser temperadas com sal. Paulo nos adverte: “O seu falar seja sempre agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a cada um” (Colossenses 4:6).  

 

Segunda

             E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos” (Deuteronômio 6:6-7). Sempre gosto de associar este texto com Provérbios 22:6 onde lemos: “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele.” Esses versos mostram de maneira clara o poder que as palavras dos pais exercem sobre os filhos. E podemos acrescentar um adendo: O poder destas palavras terá uma maior magnitude quando pronunciadas com amor e acompanhadas pelo testemunho.

            Jesus é o nosso exemplo máximo em tudo e não é diferente quando atentamos para a Sua maneira de falar. Mas um detalhe me chama a atenção. As pessoas se maravilhavam com as palavras de Jesus não só pela força que elas exerciam em Seus ouvintes, mas, principalmente, pela origem humilde do Mestre: Ele era filho de um carpinteiro de pouca cultura. Esse texto nos ensina duas coisas: Primeiro independente de qual seja a nossa origem as nossas palavras podem ser poderosas. E em segundo lugar, por mais humildes que tenham sido os pais de alguém eles podem passar para os seus filhos princípios que vão deixar extasiadas às pessoas com quem eles se relacionarem no futuro. “Todos falavam bem dele e estavam admirados com as palavras de graça que saíam de seus lábios. Mas perguntavam: "Não é este o filho de José?" (Lucas 4:22).

“Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Romanos 10:9).

 

Terça

            Costumo dizer que são os pormenores que tornam as coisas maiores. Esse pensamento é mais verdade quando se trata de palavras. Um pequeno comentário pode causar um grande desastre. Enquanto a língua está escondida dentro da boca é uma beleza, mas quando ela se mostra é que está o perigo. Trabalhei muitos anos cultivando abacaxis. Quantas vezes, ao capinar a plantação, me deparei com cascavéis escondidos em meio às moitas de mato prontos para dar o bote.

            Na minha juventude por várias vezes tive que participar de mutirões para apagar incêndios em nossa propriedade e nas dos vizinhos. As causas eram quase sempre as mesmas. Alguém decidiu queimar uma pequena porção de lixo no quintal e inesperadamente o fogo ficou fora de controle. Mas o pior de tudo é que depois de um exaustivo esforço e quando todos se preparavam para voltar para as suas casas um foco surgia do nada e recomeçava a agonia de novo. Pequenas fagulhas eram levadas pelo vento ou mesmo brisa e as chamas se alastravam de novo. Com o que falamos acontece a mesma coisa. Quando imaginamos que o desastre foi corrigido, tudo pode recomeçar e os danos são incalculáveis. Tiago dá o alerta: “Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha” (Tiago 3:5).

Temos de estar vigilantes e prontos para manter a calma em situações adversas. Os discípulos não esperavam que alguém fosse capaz de recusar hospedar Jesus por apenas uma noite e a primeira reação foi de ira. “Que desça fogo do Céu e destrua a todos” bradaram eles. Jesus mostrou que as coisas não funcionam assim.

 

Quarta

            Tiago esclarece que o homem consegue dominar todos os animais da Terra. Aliás, essa foi a ordem de Deus no final da criação: “Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, con­for­me a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais ­que se movem rente ao chão” (Gênesis 1:26).

            Com autoridade para sujeitar os grandes animais da Terra o homem tem dificuldade para dominar um pequeno órgão de seu corpo, a sua própria língua. Tiago afirma que a língua não domada contamina todo o corpo. Esse contaminar todo o corpo tem muito a ver com o nosso testemunho. Podemos usar de caridade para com as pessoas, podemos ser âncoras na igreja, podemos ser exímios dizimistas e exemplares guardadores do sábado, mas se não conseguimos domar a língua todas as nossas boas ações são contaminadas e a nossa vida espiritual se dilui.

            Tiago parece que vai ao extremo ao dizer que ninguém consegue domar a língua. Diz ele: “A língua, porém, ninguém consegue domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero” (Tiago 3:8). O que Tiago apresenta é de desanimar qualquer cristão. Sabemos que por forças humanas esse domínio é realmente impossível. Temos que nos apegar a Jesus. Aquele que fez a nossa língua é o único capaz de nos proporcionar esse domínio. Paulo encontrou a solução para todas as suas limitações. Disse ele: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13). 

 

Quinta

            Tiago apresenta o descompasso de alguém que não consegue dominar a língua. Caso da mesma boca saia bênçãos e maldições alguma coisa errada está acontecendo. Essa é uma demonstração clara de que essa pessoa não está ligada à Videira.  Quem está ligado à Videira verdadeira só pode produzir uvas e uvas de primeira qualidade.

            O autor da lição chama a nossa atenção para comportamentos que nos levam a nos separar de Cristo e consequentemente nos induz a produzir uvas azedas. Muitos alimentam a alma durante a semana com o baixo palavreado dos meios de comunicação ou se deixam levar pelo que se ouve nas ruas e no trabalho. Temos que, com a ajuda de Cristo, nos afastar da poluição linguística dos dias de hoje.

            Voltamos ao pensamento de Tiago: “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito, sendo também capaz de dominar todo o seu corpo” (Tiago 3:2).

 

Conclusão

            Devemos contemplar a Jesus como modelo perfeito; devemos solicitar o auxílio do Espírito Santo, e em Seu poder procurar adestrar todos os órgãos para um trabalho perfeito” (Parábolas de Jesus, pág. 336).            

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